Senhora das Lástimas
Senhora das Lástimas stories
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rodrigon
rodrigonAtt, Valya
Autoplay OFF  •  9 months ago
Estória em português

If anyone is truly interested in an english version tell me please

Senhora das Lástimas

Numa gélida noite invernal, uma figura espiava através dos galhos do carvalho o céu que aclamava uma tempestade.

Seus farrapos não lhe aqueciam os ossos trêmulos, mas esta figura, este homem, não tirava seus tristes e cansados olhos do temeroso céu e das horripilantes nuvens que se formavam.

Sabia muito bem que sua antiga razão de viver, que seria também a razão da morte cavalgar até ele, há de vir com a tormenta. Assim repousava o homem sob o carvalho, esperando sua hora chegar.

Ribombou o trovão, pálidos fachos de luz percorrendo todo os céus. Ouvia-se um estrondoso trotar fantasmagórico, uivos macabros e angustiantes estalos de grilhões.

Vozes estridentes que provocavam pavor.

O homem estremeceu, não de temor, mas de frio. Não mais temia o cheiro da morte, pois muito de sua vida já havia se desvanecido.

Observava os apáticos e barulhentos cavaleiros espectrais, em seus pavorosos cavalos cinzentos, um por um.

Via neles rostos familiares e não familiares, de homens e mulheres há muito esquecidos. Mas nenhum deles importava, senão sua dama.

E lá estava ela, cavalgando os céus, liderando uma matilha de sinistros cães. O coração do homem pulsou.

Admirava os cheios cabelos da moça, uma vez fogosos, agora empalidecidos pelo inverno e pelo sono eterno.

As expressões da mulher eram serenas e melancólicas, seu corpo se tornara frágil como gelo fino e sua pele brilhante como a própria lua.

O homem estendia um débil braço em direção à amada de outrora. Lastimava, pois sabia que nunca mais a teria.

Lembrava-se dos dias de outrora, onde os pássaros coloridos cantavam e as árvores frondosas floresciam, o sol brilhava e sua dama cantava em alegria.

Lembrava-se do perfume das rosas enquanto espiava a amada saltitando nos campos jubilosos, seus cabelos abrasados como a chama viva dançando aos selvagens ventos.

Lembrava-se de seus cálidos lábios e ternas mãos lhe aquecendo o rosto e o coração, mais até que o radiante sol sobre suas testas.

Lembrava-se também, no final, que por sua culpa teria a vida desertado seu ardoroso corpo.

Teria ele sido aquele que por hesitação recusou os ternos abraços da moça e todo o afeto que ela deu para ele.

Ai, pobre moça, cujo coração ferido deixava escorrer cada gota de vigor e paixão que a preenchia.

Parou assim de cantar e dançar, seus cabelos nunca mais entre eles sentiram a calorosa brisa do verão.

Não mais viu os radiantes raios solares do verão, apenas o frio sol de imverno, pois finalmente jogou-se nos braços da infame Caçada Selvagem,

e deixou que levassem seu espírito lastimoso e frio para galopar nos céus, acolhendo outras almas como a sua.

Ai do homem que a rejeitou, cuja consciência o sobrecarregou com culpa. Sabia ele que fora sua insegurança quem abafou seu amor pela dama, quem envenenou seu coração e o coração da moça.

Sabia ele que sua morte fora sua culpa. A ida de sua amada abriu uma fenda em seu peito, e ele se via sentindo a mesma aflição de sua donzela, sentindo a vida escoar para longe do seu corpo.

Então ali jaz um homem lamentável, aguardando a morte que não queria o acolher. Seria esse o preço a pagar, pensava ele.

Que nunca tivesse descanso! Que nunca se visse cavalgando ao lado da amada!

Perguntava-se se a moça desgostosa não permitia que os cavaleiros o levassem.

O alvorecer trazia consigo a primeira brisa da primavera. Os céus alegravam-se, as nuvens tempestuosas dissipavam-se.

Os urros dos mortos já não podiam ser ouvidos, dentre o canto dos formosos pássaros.

O homem abre os olhos, agora descansados, e contempla a estrela vespertina.

Até os mortos encontram descanso na aurora.

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